Fisioterapeuta por 25 Milhões

24-08-2018

É bem sabido o que a inflação, promovida por uma loucura generalizada, uma busca incessante pelo lucro e uma tremenda falta de bom-senso, tem feito no futebol.

Tudo começou em 1999, quando Christian Vieri custou ao Inter quase 50 milhões de Euros. 10 anos volvidos, e começaria o descalabro. Cristiano Ronaldo custava ao Real Madrid 94 milhões de Euros, valor que ultrapassaria os 100 após as cláusulas. E pronto, desde aí tem sido um verdadeiro fartote, a ponto de se pagarem 50 milhões por uma criança de 16 anos ou 180 por um jovem de 18.

Não demoraria a que também os treinadores entrassem nas contas destes valores exorbitantes. Estes sempre foram visados nos sucessos e insucessos da equipa que comandavam, mas começaram a ser verdadeiramente parte integrante do negócio em 2003 quando Mourinho saiu do Porto para o Chelsea. Quase 10 anos depois, André Villas-Boas fazia o mesmo percurso, mas desta vez quase pelo triplo do valor.


Contratações para o Departamento Clínico

Então... Para quando haver valores destes envolvidos em movimentações entre Departamentos Clínicos? Algum dia isto acontecerá? Algum dia os clubes reconhecerão tal valor aos profissionais de saúde, e serão arrojados o suficiente para avançar com estes valores por um médico, enfermeiro ou, neste caso, fisioterapeuta?

Se não forem valores destes... Haverá com outros? Como nos mostramos ao mundo? Como somos contratados? Com que critérios? Como nos avaliamos? E por que fatores nos devemos evidenciar?


O reconhecimento dos jogadores

Luis Suárez e Walter Ferreira

Com o Mundial de 2014 em risco devido a uma cirurgia ao joelho, Luis Suárez teve direito a cuidados privilegiados. Nesta comovente história, o falecido Walter Ferreira abandonou o seu próprio tratamento oncológico para reabilitar o avançado uruguaio a tempo do Campeonato do Mundo. O fisioterapeuta foi ver o avançado uruguaio jogar e marcar os dois golos da vitória contra a Inglaterra, tendo isso valido uma justa e merecida dedicatória do avançado.


Neymar e Bruno Mazziotti

Com uma fratura do 5º metatarso a poucas semanas do Mundial de 2018, Neymar passou por uma extraordinária reabilitação. Ao serviço da seleção brasileira, a sua estrela maior conseguiu recuperar a tempo e ser o capitão da sua seleção na prova.
Findo o Campeonato do Mundo e com rumores de que iria sair, o Paris Saint-Germain abordou o fisioterapeuta Bruno Mazziotti, tendo-se este mudado para Paris, com o objetivo de convencer Neymar a ficar e repetir o sucesso do seu processo de reabilitação, desta feita com o lateral Daniel Alves.


O Real Madrid, o caso Vitor Pimenta, e Cristiano Ronaldo

O Real Madrid é, discutivelmente, o melhor e maior clube do mundo, com orçamentos sucessivamente astronómicos e um crónico candidato a vencer qualquer prova em que participe. É o clube de sonho de grande parte dos futebolistas e tem uma história que fala por si: basta mencionar as 14 Ligas dos Campeões no seu historial.

Seria fácil então imaginar que no Real Madrid trabalham apenas profissionais habilitados, cuja competência apenas muito dificilmente seria questionada... Não é bem assim, ou pelo menos o histórico aponta para isso.

Primeiro, em 2014, o Real Madrid parece atuar bem. Apesar do título infeliz e da imagem mais ainda do jornal A Marca - ambos atentando rudemente às funções e competências do Fisioterapeuta -, a notícia é boa: o Real Madrid estende para 8 o número de Fisioterapeutas, perfazendo assim 1 para cada 3 atletas (número que mesmo nas situações mais utópicas seria exagerado).

Tudo fica em cheque quando mais à frente na notícia o jornal desenvolve que o trabalho dos massagistas é fundamental em alturas em que o calendário de uma equipa como o Real Madrid se torna mais congestionado - o que não é mentira nenhuma, o trabalho do massagista é altamente meritório... Só não é o do fisioterapeuta.

Vamos acreditar que foi lapso e são mesmo fisioterapeutas. Tudo a dizer bem até aqui.

Já em 2015, Vitor Pimenta, com duas formações profissionais em Fisioterapia e Reabilitação Física, saltou do modesto Varzim no Campeonato Nacional de Séniores (vulgo 3ª Divisão Portuguesa) para o super Real Madrid.

Impulsionado por uma boa reabilitação deFábio Coentrão, o lateral português sugeriu à direção do Real Madrid que esta o contratasse, decisão que receberia o "aval" de Pepe e do inquestionável Cristiano Ronaldo.

A 15 de Junho, o MaisFutebol noticia:

Excelente! Um Fisioterapeuta, vindo de lado nenhum (com todo o respeito pelo Varzim), vê o seu valor, trabalho e esforço reconhecido e dá um salto para o sítio onde todos querem estar.

Não tardaria a haver novidades.

Notícia do El Confidencial Digital

Pois bem, reconhecido então que o amigo de Cristiano Ronaldo não era fisioterapeuta, este gerou uma revolta junto do corpo médico do clube de Madrid, que levou à sua destituição 1 mês depois de ter chegado ao cargo.

Mas não pára aqui.

Um ano depois, em Julho de 2016, Cristiano Ronaldo está prestes a renovar o seu (ainda mais) astronómico contrato, mas uma das exigências que faz é que tem de ter o seu fisioterapeuta pessoal. Isto vem no seguimento de todo o caso de Vitor Pimenta, e de uma série de despedimentos do presidente do clube, onde uma das vítimas foi Pedro Chueca, diretor clínico do clube, que tinha o apoio de grande parte dos atletas.

O pedido de Cristiano Ronaldo foi acedido, sendo que os cuidados do português ficavam ao encargo de Joaquín Juan, e eram providenciados externamente ao clube.

(Joaquín Juan que também estagiou com a comitiva da seleção Portuguesa no Campeonato Europeu de 2016, Taça das Confederações de 2017 e Campeonato do Mundo de 2018, alturas em que providenciou cuidados clínicos na recuperação e prevenção de lesão a Cristiano Ronaldo).

Ao mesmo tempo, também Karim Benzema recorria aos serviços do ex-funcionário do Real Madrid, Pedro Chueca.


O que não fazer na Fisioterapia Desportiva?

Desta forma, se queremos ser contratados por valores exorbitantes, temos de ser extraordinariamente bons, ou pelo menos é nisso que devemos acreditar e é para isso que devemos trabalhar.

"Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias".

Carl Sagan

Ficam algumas das coisas que, aparte da competência técnica, deveríamos lutar por evitar.


Fisioterapia de fim-de-semana

Cada vez mais vemos ofertas de trabalho para fisioterapeutas em entidades desportivas. Esta procura não advem necessariamente do facto de que o fisioterapeuta começa a ser cada vez mais reconhecido pela sua competência pelas entidades que o contratam, mas sim que em termos legais a sua presença é agora indispensável - o que por si pode denotar de facto algum reconhecimento... Mas, neste caso, não o reconhecimento de quem o devia ter.

Este contexto legal obriga a que as entidades desportivas tenham, durante treinos e/ou jogos, a presença de um fisioterapeuta. Num elevadíssimo número de casos, especialmente em contexto de academias de formação de clubes mais modestos, estes procuram cumprir este requisito... Mas mais uma vez, não necessariamente pelos benefícios que ele acarreta em termos de competência, mas sim pela exigência para competição. 

A presença de fisioterapeutas em jogos da formação per si é uma das lacunas da nossa profissão. Muitas vezes o critério para aceitação ou não deste género de propostas é a remuneração, contudo convém relembrar que neste contexto pouco podemos fazer que seja de facto da nossa clinical expertise; e o que poderíamos fazer, como identificar o mecanismo de lesão, fica sem efeito caso não providenciemos acompanhamento à equipa em questão.

A Fisioterapia fica assim "coxa": ou recebemos os atletas à semana, onde não identificamos problemas decorrentes da prática desportiva nem podemos completar todo o processo de reabilitação, ou pior, estamos presentes só ao fim-de-semana, onde identificamos o mecanismo de lesão e outras eventuais complicações da prática desportiva, mas não temos como nem a quem as transmitir, já nem pedindo para sermos nós a guiar o processo.


O Fator "Bom-Rapaz"

Outro dos motivos pelos quais nós fisioterapeutas em particular não somos vistos como um ativo por parte dos clubes é o "fator 'bom rapaz'". 

A relação que o Departamento Médica cria com os principais ativos de um clube, os jogadores, é muito mais íntima do que aquela que é criada por qualquer outro agente desportivo. Diariamente, algumas vezes duas vezes por dia, os atletas recorrem aos serviços do Departamento Médico pré e pós-treino e jogo. Em muitos casos, o Departamento Médico não é um local de trabalho mas sim de lazer, onde os atletas se aglomeram para conviver, com eles e com os agentes desportivos que aí estão inseridos. Existe em muitos casos uma relação quase de amizade que seria impossível os atletas estabelecerem com treinadores, direção, etc.

Em muitos casos, a permanência de um elemento do Departamento Médico não se prende com a sua competência. Tudo o que é preciso é que ele seja um indivíduo "easy-going", com bom espírito, amigável e que não levante problemas ao funcionamento da estrutura. Isto tem consequências contraproducentes caso se dê o caso de a estrutura não funcionar: se o fisioterapeuta procura otimizar o ambiente em que está inserido, ser inovador, questionar, ou alterar más-práticas que estejam pré-estabelecidas de forma errada, começa a ser visto como um anti-corpo, ainda que ele seja, talvez, o único a mostrar-se verdadeiramente inconformado.

Repare-se que em momento nenhum se falou da sua competência. Este alheamento da avaliação da nossa competênci para o juízo do nosso trabalho traz duas implicações que são um dos fortes motivos para a Medicina Desportiva não ser um negócio  (no bom sentido):

  • por um lado, nunca seremos depedidos mesmo sendo incompetentes. Enquanto não levantarmos ondas, aparecermos e sairmos a horas, e quanto menos derem por nós, manteremos o nosso trabalho. Para o bem pessoal, mas para o mal da classe profissional, isto permite-nos bastante estabilidade laboral.
  • por outro lado, e como reverso da medalha, nunca seremos abordados por sermos competentes. Enquanto o trabalho de um departamento médico não estiver sob escrutínio, e deste escrutínio resultar a conclusão de que este não está a trabalhar bem o suficiente, nunca haverá a necessidade de se aperfeiçoar - e neste sentido, é possível até ser-se muito bom aqui... mas se ali nunca precisarem - ou acharem que precisam -, nunca irei para ali.

Esta temática é de resto inteligentemente abordada no artigo de J. W. Orchard "On the value of team medical staff: can the ''Moneyball'' approach be applied to injuries in professional football?". 

abordagem Moneyball baseia-se num livro e filme do mesmo nome que relata a forma como uma equipa de baseball com um orçamento cerca de 5 vezes inferior às restantes conseguiu ser competitiva, através do estabelecimento de critérios de rendimento baseados em factos concretos e mensuráveis e não em dados empíricos ou subjetivos - como por exemplo o aspeto do jogador ou a sua reputação.

"On the value of team medical staff: can the ''Moneyball'' approach be applied to injuries in professional football?" (Orchard, 2015, p.2)

Disponibilizámos o artigo para download em anexo.

Ora, na Medicina Desportiva, nunca poderemos então ser considerados realmente ativos válidos e valiosos enquanto permitirmos que atribuam ao acaso as nossas vitórias ou fracassos, enquanto não tornarem mensuráveis alguns dos aspetos da nossa intervenção e competência, e enquanto os fatores subjetivos que servem para nos avaliar não tenham diretamente a ver com aquilo que fazemos, mas sim com aquilo que somos.

Temos de exigir que nos reconheçam o nosso valor, para o bem e para o mal.

"Com grande poder, vem grande responsabilidade"

Uncle Ben in Homem Aranha


Polivalência, versatilidade e pau-para-toda-a-obra

Um pouco como fator decorrente do ponto anterior, especialmente em contextos cujo nível de profissionalização não seja tão alto, há tendência a verificar-se um acontecimento que tem tanto de comum como de prejudicial.

O Fisioterapeuta tem um corpo de intervenção e de saberes que lhe são específicos (já discutido num artigo em O papel do Fisioterapeuta na Medicina Desportiva), o que não implica que seja Fisioterapia tudo aquilo que o Fisioterapeuta sabe (e ainda bem que assim é). 

Contudo, e em contextos em que existam profissionais a mais, ou profissionais a menos, o Fisioterapeuta pode ver-se obrigado a enveredar por tarefas cuja realização não lhe está diretamente atribuída. Não tem mal o fisioterapeuta ter algumas bases de farmacologia ou nutrição, ser profícuo em mecânica ou ser uma pessoa prestável: isto não deve contudo implicar que este execute o papel do nutricionista ou do médico, que seja da sua competência reparar os aparelhos de eletroterapia ao invés de os requisitar novos à direção, ou que esteja alocado em si a responsabilidade de fazer sandes, apanhar bolas, cortar relva ou ir às compras.

No artigo "Multidisciplinary Sport Science Teams in Elite Sport: Comprehensive Servicing or Conflict and Confusion?" do âmbito da psicologia, os autores procuram aferir de que forma um número inconveniente de profissionais - neste caso em excesso - pode comprometer a sua ação.

Uma das conclusões que estes retiram é que a exposição dos profissionais a tarefas que não são as suas de forma a ganhar pontos junto de quem emprega (altamente relacionado com o ponto "Fator 'Bom Rapaz'"), pode enviesar a sua autoridade quando for necessário recorrer a ela.

"Multidisciplinary Sport Science Teams in Elite Sport: Comprehensive Servicing or Conflict and Confusion?"  (Reid, Stewart e Thorne; 2004; p.4)

Disponibilizámos o artigo para download em anexo. 

Por outro lado, ao invés de o fazer por motivos de se destacar para agradar os seus superiores, muitas vezes os fisioterapeutas poderão fazê-lo pela necessidade: a ausência de profissionais destacados para uma tarefa fora da sua competência pode implicar que estes sejam forçados a resolver o problema, possivelmente sob a coação de que, se eles não o fizerem, muita gente haverá que o quisesse fazer.

Isto não só retira valor à especificidade da nossa formação e do nosso trabalho, como pode inclusivamente tornar-se uma tarefa, em algumas situações, extremamente extenuante e quase humilhante.

"Don't kill yourself for a job that would replace you within a week if you dropped dead."


A Medicina Desportiva como negócio

Concluimos assim que para nos evidenciarmos, temos primeiro de assegurar que trabalhamos como Fisioterapeutas, e que é desta forma que as pessoas nos encaram, não nos vendendo ao desbarato apenas no que diz respeito aos montantes financeitos, mas também não vendendo ao desbarato o nosso brio profissional. Apenas depois nos vamos poder evidenciar pela qualidade do trabalho desenvolvido.

"No desporto está tudo muito profissionalizado, mas no que diz respeito à Medicina Desportiva esta ainda fica muito áquem. É o único aspeto [no futebol] que não se vê como negócio. Os clubes gastam muito a contratar jogadores, mas muito pouco a cuidá-los."

Joaquin Juan, fisioterapeuta pessoal de Cristiano Ronaldo


E que um dia aquela capa seja o prelúdio para uma história deste género.


Anexos

On the value of team medical staff: can the ''Moneyball'' approach be applied to injuries in professional football?  (Orchard, 2015):

"Multidisciplinary Sport Science Teams in Elite Sport: Comprehensive Servicing or Conflict and Confusion?" (Reid, Stewart e Thorne; 2004):


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