Efeito Dunning-Kruger na Fisioterapia

18-07-2018

O que fazer quando parece que não sabemos nada? Ou quando achamos que sabemos tudo? Seremos especiais?

Justin Kruger e David Dunning são dois investigadores norte-americanos ligados à área da Psicologia.

Em 1999 Kruger e Dunning criaram um estudo assente em algumas conceções gerais da psicologia, que viria a modificar a forma como vemos a prática em determinado campo de estudos.

No estudo Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One's Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments, estes investigadores recorreram a alguns testes em variadas áreas para testar de que forma o presença de conhecimento se correlacionava com a capacidade de auto e hetero avaliar desempenho e competência.

Resumidamente, entre outras conclusões, aquilo que se pode depreender do estudo é que:

  • pessoas com menos competência tinham menos capacidades auto-avaliativas

ou seja, a disparidade dos seus resultados percecionados era maior que aquela encontrada em pessoas com maior conhecimento (nalguns casos destes últimos, esta disparidade reflettia-se mesmo numa subavaliação do conhecimento)

  • pessoas com menos competência tinham menos capacidade hetero-avaliativas

por não terem capacidade metacognitivas, pessoas com menos competência não eram capazes de reconhecer se os seus pares faziam melhor ou pior figura que elas próprias

Resultados após a passagem de testes de lógica, refletindo estatisticamente o Efeito Dunning-Kruger

O que isto reflete é aquilo que se diz empiricamente de "não se criticar sem saber". Mas será que o que dizem é de facto o que pensam que dizem, e será que o que pensam que dizem será o que quereriam dizer?

E será que alguma das interpretações das perguntas acima será verdadeira?

Imagem ilustrativa do Efeito Dunning-Kruger

Então, de forma simplista, o que o Efeito de Dunning-Kruger diz é que, enquanto novatos, não estamos aptos a exercer de forma completamente competente a nossa prática, uma vez que temos limitações, as quais não conhecemos, e, assim sendo, às quais não atribuímos importância. A avaliação da nossa performance é inversamente proporcional àquilo que sabemos.

É impossível apercebermo-nos de que estamos inconscientes, uma vez que esta perceção implica algum nível de consciência, tornando-o um paradoxo. O mesmo se passa com o conhecimento. É impossivel apercebermo-nos de que não sabemos algo, sem saber que isso existe. Só essa perceção de que há algo que desconhecemos implica uma informação maior de determinado campo de conhecimento. Então, muitas vezes, o ter mais dúvidas não implica menos conhecimento, pelo contrário.

Com o aumento do conhecimento em determinada área, começaremos a refletir e perceber que a nossa prática tem lacunas - nalguns casos, lacunas graves - que nós desconhecíamos. O conhecimento aparece-nos de diversas formas e com diversos graus de fiabilidade. Passamos a compreender que devemos ouvir mais do que falar e ler mais do que escrever. Apercebemo-nos que não sabemos grande coisa de nada - e que há muita coisa da qual não sabemos nada.

Só sei que nada sei. 

Platão in O Paradoxo Socrático

À medida que somos capazes de identificar essas lacunas, seremos também capazes de supri-las. E com isto, a confiança naquilo que fazemos voltará a aumentar - quero acreditar que nunca até aos 100%.

Esta obtenção de conhecimento divide-se então por diversas fases.

Algo importante, e recuperando um ponto anterior, é a questão do "não se criticar sem se saber". Isto é geralmente um argumento utilizado por pessoas com mais anos de trabalho, cujo objetivo é indicar que com a sua experîência, veia a sabedoria.

Não é necessariamente verdade.

Repare-se que no eixo das abcissas não está exposto como "Tempo" ou "Experiência", mas sim "Conhecimento".

Conforme já foi também discutido neste espaço noutro artigo de reflexão, a experiência não é mais do que colocar em prática o conhecimento científico que fomos construindo.

Alguém que trabalha há 20 anos, não terá necessariamente 20 anos de conhecimento. Isto é uma falácia.

Experiência é viver várias realidades; não a mesma realidade várias vezes.

Luis Mesquita

Devemos então perceber que o conhecimento é um construto e que independentemente do tempo há que exercemos, devemos sempre continuar a aprender e investir em formação e conhecimento de qualidade.

Ou seja,

o que Kruger e Dunning acrescentaram ao campo científico não foi mais do que apercebermo-nos, mais uma vez, da nossa falibilidade, da nossa ignorância e da ineficácia da nossa perceção. E quanto mais cientes estivermos deste facto, mais aptos estaremos para o contrariar. Quanto mais conhecimento construirmos, mais capazes seremos de ser reflexivos. Quanto mais experiência tivermos, melhor será a nossa capacidade crítica. Quanto melhor forem todos estes fatores, mais noção teremos da nossa realidade global, seja dos pontos fortes ou dos pontos fracos.


O maior inimigo do conhecimento não é o desconhecimento, mas sim a ilusão do conhecimento.

Stephen Hawking


Implicações na área científica da Fisioterapia

Conhecendo então este efeito intimamente ligado à condição humana, o que poderemos fazer?

  • A primeira fase, vulgarmente denominada "Monte do Estúpido", vai sempre acontecer. A pessoa pode ser mais humilde ou menos, mais efusiva ou menos, mas lá no fundo vai sempre sobrevalorizar aquilo que sabe. Isto não tem problema. O importante é entender que isto é normal e que por achar que sabemos tudo, não devemos parar de procurar. Eventualmente, não com o tempo mas sim com o conhecimento que vamos construindo, vamos acabar por nos aperceber que falta-nos saber infinitamente mais do que sabemos.
  • Eventualmente, chegaremos ao "Vale do Desespero". Esta é uma fase crítica antagónica do período inicial. Vamos colecionando informação, muitas vezes de forma muito rápida e desmedida, e temos dificuldade em organizá-la em conhecimento e depois em aplicá-la sob a forma de sabedoria. Nesta fase é importante tirar um momento para pensar. Parece que não sei nada, e o que sei não o sei organizar. A confiança naquilo que digo claudica.
    Aqui, poderá ser útil refletrir: "como estou agora e como estava há 5 meses?"; "o que sei agora que não sabia?"; "qual é o caminho que quero seguir?". É um momento importante que nos irá definir no resto da jornada - o mais difícil já está feito, mas sem esta reflexão, o jovem Fisioterapeuta poderá pensar que não foi feito para isto.
  • Quando finalmente criamos uma lógica naquilo que sabemos, estabelecemos um sentido para o nosso percurso e continuamos a construir conhecimento, a nossa confiança começa a aumentar e entramos na "Curva da Perceção" (Slope of Enlightenment).
    Uma vez que nas fases anteriores já fomos estabelendo um conjunto de princípios pelos quais devemos reger a nossa conduta, adicionamos agora a experiência que nos impele a procurar conhecimento pertinente e utilizá-lo de forma segura. Os nossos níveis de assertividade com o resto da comunidade científica, pares e pessoas no geral começa a aumentar gradualmente.
  • Por fim, chegamos à "Planície da Sustentabilidade". Transmitimos segurança naquilo que dizemos, o que não implica que o encaremos como verdade absoluta. Não nos importamos de ouvir respostas dissonantes da nossa, mas queremos que estas sejam bem fundamentadas. A partir daqui, o que vai variar não será a confiança no que sabemos, mas antes o conhecimento, sendo que a relação deixa de ser linear.

Podemos concluir um facto curioso daqui. A confiança não depende do conhecimento, com já ficou claro. Depende do percurso.


Conclusão

A confiança depende da variabilidade de experiências, da busca de informação, do contacto com situações novas, do erro, da frustração, da arrogância. A esta confiança está associada um dúvida inerente ao nosso próprio percurso.

Enquanto jovens, devemos compreender que não devemos ter receio de nos expôrmos. Devemos encarar as situações de forma audaz, mas entender que é possível (e muitas vezes provável) que estejamos enganados, especialmente em situações nas quais não estamos totalmente aptos. Isso não nos deve retirar a experiência. Devemos reconhecer a experiência e competência daquele que as têm mais que nós, e ter a coragem de assumir a nossa posição e ao mesmo tempo admitir se nos provarem a posição contrária. Faz parte do processo.

Enquanto pessoas que já fizemos o percurso, devemos compreender que nem todos estão no nosso ponto da jornada, e mais do que desvalorizar, devemos ajudar os mais jovens a encontrar o nosso caminho, de forma mais fácil do que nós encontrámos o nosso.

Muito mais haveria a dizer sobre isto... Ficam as considerações finais.


Não existem Gurus.

Toda a gente sabe alguma coisa.

Adquiram experiência. Errem. Apliquem. Aprendam. Frustrem-se. Duvidem. Procurem. Esclareçam. Reflitam. Achem-se. Desiludam-se. Admitam o erro. Sejam felizes e bem-sucedidos.

Tudo a seu tempo.


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