Benchmark na Fisioterapia

11-12-2018

Uma reflexão sobre a utilidade da Fisioterapia, do Fisioterapeuta, e quais os critérios para se considerar a sua função bem-sucedida.

Vou só começar por deixar isto aqui: creio que os Fisioterapeutas não sabem bem os pressupostos básicos da Fisioterapia e como eles podem ajudá-los a definir uma intervenção com qualidade. Este pode ser o problema de base de uma série de outros erros conceptuais associados à Fisioterapia.

  1. Dificuldade em estabelecer parâmetros de satisfação do paciente e avaliação de qualidade  e pertinência da atuação do fisioterapeuta.
  2. A necessidade de procurar formação complementar fora da sua área de atuação, muitas das vezes sem sequer se "dar uma hipótese" à Fisioterapia.
  3. Locais de atuação e condições em que o Fisioterapeuta pode ser um elemento útil.

Benchmark é um conceito que reflete os pontos fortes de determinado negócio ou entidade. Pode dizer-se que benchmark é a forma como o produto se vende, e neste caso o produto Fisioterapeuta vendese através daquilo que os Fisioterapeutas fazem. Não adianta dizer que a Fisioterapeuta é algo que depois na prática diária não se verifica, uma vez que o estado-da-arte é o que acontece, e não o que deveria acontecer.

Os 3 pontos relatados acima estão intimamente ligados, e todos eles partem da premissa base de que os Fisioterapeutas não conseguem discernir ao certo onde começam e onde acabam, legal, deontológica e empiricamente, o seu papel e o seu campo de atuação.

Culturalmente, a sociedade evoluiu para um paradigma simplista e redutor, no qual se quer respostas e resultados, independentemente do caminho percorrido e da responsabilidade associada aos nossos atos e circunstâncias: temos um problema no computador, queremos que alguém o arranje; queremos uns abdominais definidos, inventa-se um máquina de abdominais vibratória; queremos um corpo elegante, inventa-se um batido detox natural que emagrece - e, consequentemente, na saúde, temos uma dor, queremos que alguém a tire.

Pois bem, como em quase tudo, não há milagres. Na nossa área em específico, muito menos. E é nos pequenos "és fisioterapeuta?! Olha, dói-me muito o ombro, o que é que posso fazer?" que começa o nosso problema. Ou melhor, e como pretendo demonstrar, o problema não está na pergunta, mas sim na resposta que nós tentamos dar à pergunta.

A Fisioterapia é uma área com evidência científica  que a sustenta e, portanto, com credibilidade, porque não se propõe nunca a dar resposta para os quais não tem solução através das ferramentas que tem à sua disposição. E é aqui que nós, Fisioterapeutas, começamos por falhar: no entendimento destas ferramentas e na influência que estas podem ter.
Em momento nenhum qualquer das ferramentas de que dispomos se propõe a eliminar imediata e permanentemente a dor. Aliás, na verdade, atrevo-me a dizer que o principal parâmetro que deveríamos tentar modular não era a dor, mas sim o sofrimento, isto é, a influência que a dor tem na vida, função e atividades de determinado indivíduo. 

O problema surge quando, para qualquer pequena dor que surge, tentamos de imediato dar uma resposta altamente biomecânica, estrutural e específica - quando na verdade, muito provavelmente, não a há. Se calhar quando nos perguntam o que podemos fazer para a dor no ombro, em vez de respondermos que pode fazer a ou b, devemos tentar perceber de que forma aquela dor influencia o dia-a-dia do indivíduo. Atrevo-me a dizer que, na maioria das vezes, essa dor não se reflete em complicações reais, pelo que a nossa intervenção deve ir muito mais no sentido de desmistificar do que propriamente de tentar justificar (ainda que se possa fazer ambas). Devemos diminuir o sofrimento através da promoção a participação e não da diminuição da dor.

O corpo humano é incrível. Quando perdemos a visão, os outros sentidos ganham acuidade; quando perdemos o membro dominante, tornamo-nos profícuos com o contra-lateral - aliás, casos há em que perdendo dois membros superiores, indivíduos se tornam profícuos com os membros inferiores; em caso de lesão cerebral, o nosso organismo arranja forma de manter a nossa participação e de continuar a interagir com o ambiente através da alteração da tarefa - somos predestinados à adaptação. Quando dizem que somos os únicos seres vivos racionais, provavelmente será porque somos os que mais capacidade temos de improvisação e, em última instância, de adaptação à mudança (Stephen Hawking).

Não posso acreditar que um organismo doente que sobrevive e continua a participar após um AVC se deixe derrotar, principalmente são, por uma dor - e é por este motivo que digo que, muitas vezes, o Fisioterapeuta é o seu pior inimigo ao assumir um papel contraproducente no que diz respeito à promoção de Saúde. É tão simples como o facto de o Fisioterapeuta lá estar implicar que a pessoa o vá consultar, provavelmente sobrevalorizando a sua dor, alterando a sua participação.

Na verdade, com isto não tento dizer que o mal está nos Fisioterapeutas - mas sim que o mal está no papel que o Fisioterapeuta escolhe representar no processo: em vez de ocuparmos e desempenharmos o nosso papel de Educadores, queremos assumir um papel de Intervenientes Principais - quando não o devemos ser. Isto serve também para casos mais graves, mas nestes torna-se por demais evidente.

"Dá-se um peixe a um homem e ele tem comida para uma noite. 
Ensina-se um homem a pescar e ele tem comida para a vida toda."

Uma de duas coisas pode acontecer quando uma pessoa sente dor: desvalorizá-la; ou consultar um profissional (Fisioterapeuta, no caso).

Aquilo que nós fazemos muitas vezes, tonrando-nos contraproducentes de forma perversa num processo que só queremos facilitar, é atribuir uma representação maior do que aquela dor teria só pelo facto de a considerarmos especificamente. Mais contraproducentes ainda somos quando, para lidar com essa dor, diminuimos a participação. Ora, se a dor se mantém e a participação diminui, segundo a equação anterior... O sofrimento aumenta.

Modelo teórico de como a intervenção do Fisioterapeuta, de forma despropositada, pode exacerbar e, em último caso, promover a cronicidade de condições de saúde.

Com o aumento do sofrimento e as respetivas consequências comportamentais (aumento do processo de catastrofização, diminuição da utilização de estratégias de coping) e fisiológicas (diminuição da inibição dos sistemas nocicetivos), a dor irá agravar.

Assim, e para finalizar e reanalisando o ponto 1., é neste sentido que nós, Fisioterapeutas, temos de começar a entender que, de forma geral, os nossos objetos de intervenção são gerir o sofrimento através da participação - a nossa influência na dor é secundária... Mais uma vez, basta ver a equação.


Quem tudo (quer tratar)... Tudo perde.

Continuando neste raciocínio, e remetendo assim ao ponto 2. é aqui que continuamos a perder o nosso benchmarking. Quando pedem aos fisioterapeutas para, milagrosamente, curar dores que não têm necessariamente de ser "tratadas", sentimo-nos impotentes. Mas isso não é culpa nossa, é antes devido ao facto de a) não haver curas milagrosas, muito menos para b) dores que não necessitam de cura.

A dor é um processo natural que está diretamente associado ao facto de o organismo não ser um sistema fechado (muito menos isolado), nem morto - coisas acontecem (e ainda bem!) no nosso organismo.

Com a necessidade de darmos resposta a algo a que é impossível, especialmente com a nossa área de especialização, darmos resposta, sentimos a necessidade de procurar noutras áreas aquilo que a nossa não nos dá. O que eu gostava de deixar expresso é: nenhuma vos vai dar isso.

Mais uma vez, o facto de querermos deixar de ser Educadores faz com que, para além da já referida ação contraproducente, o Fisioterapeuta perca a força da sua ação, porque as nossas valências não nos permitem curar dores milagrosamente. É como pedirem a um peixe para subir às árvores... Mas neste caso, nem sequer árvores há.

Ou seja... O Fisioterapeuta fica a pensar que a Fisioterapia não serve para dar resposta às necessidades que lhe são impostas, quando, mais uma vez, o mal não está na Fisioterapia: mas sim no Fisioterapeuta, e nas necessidades apresentadas.

Então, cada macaco no seu galho. Está na altura de os Fisioterapeutas perceberem que, pelo menos enquanto Fisioterapeutas (porque a Fisioterapia não tem esse poder), não podem querer dar resposta a tudo o que seja dor, tão simplesmente pelo facto de não termos essa competência. Podemos ajudar a aliviar dores... Mas nem isso se faz como, enquanto classe, pensamos que se faz.

A discussão sobre se existe de facto alguém que o consiga fazer (ou que ache que consegue) deixaremos para outra altura...


Portanto...

Clube de Futebol. O Jogador X entra no Dept. Médico com "dores no joelho". Não sabe quando foi, nem consegue especificar bem o sítio. Tentamos ajudar com uma avaliação precisa e a presrição e execução de exercício, alguma terapia manual e aconselhamento e escuta ativa - o atleta está igual. 
Se calhar, é motivo para não o deixar treinar. "Não, deve dar para treinar".
AH! Então se calhar por isso é que o Fisioterapeuta não podia ajudar! Porque, se calhar, o Fisioterapeuta não era o profissional indicado para aquele problema (ou relato de problema). 

Chegamos ao ponto 3.
Mais uma vez, vou ser arrojado e colocar em causa o papel do Fisioterapeuta no Desporto - nãs nas suas funções base de intervenção e prevenção, mas sim no pré-treino ou jogo - e mesmo aí, não da forma como poderíamos ajudar, mas da forma como, de facto, achamos que ajudamos.


Conclusão

Eis o grande problema em vendermos a Fisioterapia - a sociedade em que vivemos precisa de nós como Educadores, que nós não estamos preparados para ser. A Fisioterapia é o herói que a sociedade precisa, mas não o herói que a sociedade quer. Será que está na altura da Fisioterapia deixar andar e um dia mais tarde dizer "eu avisei"? Ou devemos capacitar os Fisioterapeutas destas considerações, fazendo mais um esforço para nos mostrarmos como os agentes em saúde que de facto podemos e devemos ser? E aí, assim, a Fisioterapia poderá vender-se por aquilo que é, enquanto conceito, e por aquilo que é, na prática.